Como eu aprendi a gostar do Chaves e que tipo de coisa ele me ensinou

Eu nunca fui fã nem dele, nem dos seus programas (sim, era eu, o único cara na América Latina que não gostava do Chaves), mas com o tempo aprendi a reconhecer seu valor, não por mudar minha opinião, mas por prestar atenção nos olhos dos outros.

Na verdade eu detestava o programa. Achava pobre, mal feito, mal escrito, completamente fora do padrão estético que eu intuia que a TV deveria ter, eu levaria anos e mais anos para reconhecer que o que mais me afastava da unanimidade sobre Chaves e Chapolim era um enorme preconceito.

O primeiro vislumbre que tive disso, foi um dia, anos atrás, pingando os canais da TV. Certa tarde passei por um programa "feminino" daqueles lamentáveis, com artesanato, culinária, fofocas, e todo o pacote para fazer companhia e lavagem cerebral para as donas de casa.

Acho que era Sônia (Abraão, Abramo, algo assim), ou talvez fosse um rapaz gordo que personifica uma mama italiana na TV, bom não lembro mesmo, mas isso é irrelevante, o importante foi que no momento que passei no canal vi uma chamada do tipo "O Sr. Barriga já está aqui, conosco no estúdio. Ele está chegando!"

O ator que interpretava o gordo capitalista e rentista estava em sua primeira visita ao Brasil, a câmera acompanhava ele chegando ao estúdio, desde o desembarque no carro, lá fora, na calçada.

Eu fiquei mesmerizado e não consegui mudar de canal. Todas, absolutamente todas as pessoas o reconheciam (ele estava mais magro e mais velho, mas ainda era gordo), as pessoas ficavam genuinamente felizes de o ver, elas paravam e lhe agradeciam de coração, como se ele tivesse lhes salvado o emprego, um parente, ou feito algum favor pessoal. Nenhuma delas ficaria mais feliz se desse de cara com o próprio e verdadeiro Papai Noel. O cara era mais popular do que o Noel!

A certa altura, já dentro do estúdio, caminhando pelos corredores, eles cruzaram com uma moça loira, muito bonita, olhos azuis, dessas que apresentam programas infantis, depois posam peladas e viram "atrizes". Uma mulher adulta portanto, que trabalhava na televisão e encontrava todo tipo de gente famosa. Ela passou por ele distraída, conversando com alguém e quase não o viu, mas quando viu ela desmontou, começou a chorar, rir e gritar, tudo ao mesmo tempo. E como se tivesse seis anos, ela pulava em volta dele, feliz, agradecendo, cumprimentando, abraçando, beijando. A cena era tão genuína que eu, que não gosto de Chaves e, que tenho uma pedra pequena, preta e gelada no lugar do coração, tinha lágrimas nos olhos (sem dúvida resultado de ciscos ou algo assim).

Aquilo durou um tempo.

Ele foi ao estúdio, foi entrevistado, viu vídeos, ouviu depoimentos, o pacote completo. Mas o diferente era que todos pareciam estar na presença de um amigo de infância, da apresentadora aos câmeras, ninguém queria deixar de registrar a importância que aquele homem tivera em suas vidas. Ninguém terminava uma frase sem agradecer muito a ele.
Oras, eu sou um marxista endurecido por um perpétuo pessimismo com o mundo e as pessoas, tanto que sempre tive cuidado de escolher meus heróis entre gente morta, que por sua condição de defuntos costumam ter mais dificuldade em nos decepcionar, e mesmo assim, lá estava eu, me atrasando para um compromisso, ouvindo um ator mexicano contando o quanto era afortunado e grato por ter participado daquele programa que unia e significava tanto para a América Latina. Do quanto ele agradecia pelo carinho que recebia em todos os países, quanto agradecia por ser gordo, o quanto agradecia ao amigo Bolaños.

Havia algo estranho ali, um questão de escala, uma coisa grande demais e da qual eu nunca havia me dado conta.
Foi a primeira vez que eu me toquei do quanto minha postura com o Chaves era arrogante, prepotente, preconceituosa e - principalmente - burra.

Estava óbvio que o que quer que houvesse naqueles personagens que não ressoava comigo, criava uma enorme identidade com praticamente todo mundo neste continente. Eu não precisava gostar do Chaves e nem do Chapolim para reconhecer o seu valor.

Eu nunca mais me esqueci dessa lição, e por ela eu busco olhar outras manifestações culturais que não suporto com um olhar mais suave, ao menos com a saudável postura de "talvez isso não seja completamente uma merda, ou não apenas e tão somente uma merda, talvez haja algo aí que eu não consigo entender e que eu preciso prestar mais atenção". É uma lição importante de humildade quando você nota que aprendeu a ser um historiador melhor com o Sr. Barriga.
Depois disso eu comecei a fazer um exercício esporádico de "pensar sobre o Chaves" quando passava por ele na televisão.

Em minha defesa posso dizer que nunca cheguei a gostar do programa, embora tenha desenvolvido uma simpatia tardia por ele e, em alguns momentos - pasmem! - eu posso até ter rido de uma ou duas piadas.

A simpatia derivou desse exercício de pensar o Chaves, primeiro, é óbvio, há o valor intrínseco em ser uma (a única?) produção cultural da América Latina que conseguiu fazer frente e disputar mercado com os enlatados estadunidenses. Por anos. Por anos a fio, em repetições ininterruptas.

E com o tempo entendi que isso só era possível por que ali, naquela Vila feia, pobre e escura onde morava o Chaves, o Roberto Bolaños conseguiu capturar um microcosmo da vida das populações por toda a América Latina, incluindo aí o sempre alienígena Brasil.

A velha feia e fogosa, a Bruxa do 71; o menino de rua que se vira sozinho e mora num barril; o pai solteiro eternamente vivendo de bicos e fugindo dos cobradores e suportando de maneira estóica todas as humilhações e indignidades que derivam da pobreza; o proprietário que acabava tendo um coração maior que a barriga; a mãe solteira, incapaz de se aceitar no mesmo nível/classe de seus vizinhos; o filhinho mimado e super protegido; o professor em "missão" de transformar a realidade daquelas pessoas pela educação; o super-herói sem poderes, coragem ou mesmo muita inteligência, que precisa resolver os problemas pela "esperteza".

Entre estes personagens, com seus conflitos, brigas, desentendimentos, competições tinham um marcado traço de solidariedade. Em muitos dos episódios que assisti, e admito foram bem menos do que você que está lendo isso, havia uma mensagem de solidariedade. Um sanduíche de presunto que era dividido, uma dívida perdoada, um aluguel que poderá ser pago no próximo mês, "sem falta!", ou mesmo o Chaves sendo levado junto para a viajem a Acapulco.
E eu acho que essa talvez seja a melhor tradução, a melhor tentativa de explicar o sucesso e o fenômeno do Chaves: Eles eram pobres e eles estavam naquela Vila juntos, para o que desse e viesse.

Muitas vezes em conflito, mas sempre juntos, solidários e pobres.

Juntos, solidários e pobres.

Para todos os lados que eu olho, essa me parece uma ótima definição da América Latina e de seus povos.

Agora que Bolaños se foi, nós ficamos aqui, perguntando "E agora? Quem poderá nos defender?"

[em tempo: eu escrevi este longo texto no celular, deve ter um monte de erros, depois eu volto e arrumo, tá? Ou não. Vamos ver. ]