Não sei porque eu insisto

 

Olha eu gostei de você. Vou te ajudar como nunca me ajudaram, tá bem?.

A verdade que nunca ninguém te diz é que sua dedicação ao estudo vai ser menos compensada do que você imagina.

Você é novo, jovem. Fica na sua cabeça essa coisa dos modelos sabe? Pra mim são esses modelos que fodem tudo.

Oh, grandes realizações! Gente que conseguiu fazer coisas incríveis com esforço, dedicação e a repetição maníaca de rituais até que os movimentos de uma habilidade se tornassem uma segunda natureza. Pfff.

Bobagem. Com pouco tempo de estudo você já consegue fazer umas coisas que quem nunca teve chance de estudar já acha bem impressionante. Da pra pegar umas menininhas deslumbradas sabe?  Sempre tem umas tontinhas que se impressionam com umas coisinhas bem prosaicas. E é esse o problema.

Logo você percebe que os grandes mestres são cheios de pompa, de circunstância, mas que aquela cerimônia toda não é respeito pelo ofício. Aquilo não tem nada de sagrado. É puro charlatanismo. Luzes e espelhos cobrindo habilidades normalmente medíocres. Gente tosca, com dificuldade de pensar, se fazendo passar por grandes sábios. Pfff.

Você vê os grandes e famosos mestres ali, na sua frente, e você começando a sacar que são só uns velhos inseguros com seus dotes, carregando tomos que parecem complexos e ancestrais, muito mais para impor respeito nos jovens, do que por terem em suas páginas algo de útil.

Verdade seja dita, para mim, nesse ponto dos meus estudos, apostaria dez anos da minha velhice que metade deles não consegue ler línguas antigas. Todo mundo trabalha com vulgatas. Todo mundo! É mais fácil e o texto traduzido faz o mesmo efeito do original.

Droga, metade deles nunca nem se arriscou a abrir os malditos livros.

E os seus colegas? Não me deixe começar a falar dos colegas... Nossa...

Que perfeito bando de idiotas. Essa conversa de estudar para entender o universo me dá vontade de morrer queimado.

Entender o universo é um caralho de ogro da Floresta Negra. O universo é caos seus cretinos. Caos. Não há o que ser entendido, só existem perspectivas. Lampejos de compreensão, sempre de uma fração de uma fagulha de um espectro da realidade.

Estudar pela compreensão é uma ilusão. Uma ilusão perigosa que já consumiu gente que, de outra forma, teria até potencial para algum sucesso nessa vida. Só não são piores do que os que querem estudar para ajudar os outros. Esses EU tenho vontade de matar queimados!

Pra mim não. Eu sempre quis estudar só para me dar bem. Aprender só o que tivesse potencial para me dar algum tipo de poder.

É. Eu bem sou outro idiota. Além das menininhas que se impressionam com bobagens, que são, aliás, cada vez mais raras, essa merda desse estudo todo nunca me trouxe muito poder. No máximo decepções.

Eu deveria ter escolhido violência.

Violência é compensadora e estabelece poder muito rápido. Até parece, né? Um rato de biblioteca como eu, não teria chance contra a verdadeira violência do mundo. Não teria conseguido nem comer as poucas idiotinhas que hipnotizei com o que aprendi.

E agora eu sou um velho. Aqueles eram os bons e velhos tempos. Escolher violência neste ponto da vida, seria escolher o fim da vida.

E eu sou um velho teimoso. No fundo ainda acho que posso achar dentro de um desses livros estúpidos algo que não me decepcione.

Ah, a decepção. Eu lembro do meu coração acelerado na minha primeira vez.
Veja bem, uma década de preparação, instrumentos, ingredientes e lá estava eu, pronto para recriar o próprio processo da vida. Eu não cabia em mim de excitação. Vida. De certa forma pelo menos.

Você não pode culpar Deus, sabe? Quer dizer, o que você esperava que ele conseguisse fazer com barro? Barro é barro cacete. Uma meleca com todo tipo de sujeira, provavelmente com merda no meio. Merda de mais de um bicho com certeza. Merda é bom para dar liga no barro, sabia? Não? Bom. Mas é. É tipo o truque. Mas o que se pode conseguir com merda, não é mesmo?

Isso mesmo. Mais merda.

Sim. Aquele foi a minha primeira vez, e a minha primeira decepção, é até incrível que eu não tenha parado lá mesmo. Olhando agora até a vida de agricultor parece mais plena de sentido.

Um golem. É sim. Ai, ai, o temível golem. Pfff.

Uma criatura de barro, "um escravo para fazer tudo o que você quiser". A vida que o próprio mago cria com os seus "poderes sombrios".

"Poderes sombrios" é um caralho! Um caralho! Um caralho de ogro da Floresta Negra!

Um golem é um bolo!

É uma receita. Você mistura o barro com aquela merda toda da receita, cozinha na temperatura certa, escreve EMET na testa dele e pronto. Tá feita a vida. De barro. De merda. Assado como um bolo. Um bolo de merda.

"Oh, o poderoso mago tem um golem escravo, nossa que mago fantástico".

É. Fantástico como um padeiro. O que dá mais trabalho é construir o forno para assar o gigante idiota, afinal você é um mago que se dá ao respeito, não vai fazer um golem pequenino, que dá para assar num forno de pizza, nããããããããããooo, tem que ser uma porra de um gigante. Pfff. Uma declaração de poder! Grande merda. O poder de seguir uma receita.

O que não está escrito em lugar nenhum da puta da receita, sabe, o que nenhum daqueles magos cuzões, com aquelas longas e veneráveis barbas brancas te contam, é que o seu escravo é um imbecil! Um gigantesco imbecil com um cérebro de barro, apaixonado por você. O corno quer ficar o tempo todo do seu lado!

Já tentou dormir com um golem de dois metros e meio curvado dentro do seu quarto? Já tentou comer uma camponesa com um golem te encarando? Não? Eu já!

Vou te dizer meu jovem: seu pau não sobe! Aquele monstro idiota fica ali, te olhando, a camponesa nem sabe se você tá comendo ela ou não, ela só consegue olhar pro porra do golem e tremer.

Mandar ele pra fora? Como assim? Você não tá prestando atenção no que eu tô falando?

Você manda a criatura ir lá fora, manda ele virar, manda ele ficar longe e ele obedece. Na hora! Parece mágica, rá rá.

Mas logo depois ele volta. E fica ali, te encarando. Sabe por quê? Porque o cérebro dele é de barro! De merda! Ele tem merda, tem esterco cozido na cabeça. Ele faz tudo que você manda, mas ele esquece rapidinho o que você mandou. Ele só lembra que te ama e quer ficar pertinho de você.

Eu acho que ele queria ser a camponesa, até a camponesa achou que ele queria estar no lugar dela. Matilde. Nunca mais me deixou chegar nem perto dela. Vive naquela porra de igreja. Aquele padre é que é vivo. Come até as crianças e fica de boa, rezando e filando a bóia na casa dos outros.

Eu sou mesmo um idiota...

É isso que eles não te contam entendeu? É isso que não está escrito em lugar nenhum! Nenhum! Um golem é uma bosta! Uma bosta feita de bosta. Uma bosta cozida. E é feio. Feio, feio, feio. Te olhando apaixonado, pra sempre.

Entende porquê não tem um monte de golems andando por aí?

Eles não são escravos, são um estorvo! Auto-maldição. Um puta de um estorvo. Um estorvo de dois metros e meio, porque você é um idiota com problemas de auto afirmação e não podia fazer um golenzinho, no forno de pizza, não, claro que não, tinha que ser uma porra de um gigante que fosse um testemunho do seu poder.

Tem que ser muito burro. É quase pior do que invocar demônios. Quase. Burro.

Você manda seu escravo gigante varrer a casa, manda e o imbecil, vai. Ele fica lá, segurando a vassoura, olhando para ela como se fosse uma porra duma máquina voadora. Daí ele te olha, com amor naquela cara de barro tostado, e vem com a vassoura perto de você. Você respira fundo, pega a vassoura e mostra para ele como ela funciona, o desgraçado te olha tão impressionado que dá até dó, a cara de espanto que ele faz parece até que você, sei lá, deu vida prum golem.

Então ele começa a varrer. Esquece um pouco que você existe e começa a varrer. Já viu um golem de dois metros e meio varrendo? Não? Eu já. Ele foca na tarefa, ele começa a varrer. De verdade, com força, você acha que ele vai quebrar a vassoura, mas não, ele começa a quebrar as coisas em volta.

O bicho é completamente desajeitado, sei lá se eu montei direito, não sou escultor, dá um puta trabalho, no final você só quer acabar logo e tirar a mão daquela meleca fedorenta. Sangue de porco. Tudo quanto é ritual leva sangue de porco.

Não! Claro que não. Você é algum desequilibrado? Uma virgem você come, você não mata. Olha... Sangue é tudo igual, alguma língua antiga usava uma palavra parecida para virgem e porco, algum mago cretino achou que dominava o idioma e fez uma tradução porca. Rá, rá, rá, "tradução porca", sacou?

Hunf, deixa pra lá, esse é o problema de todo mundo usar vulgatas, imagina quanta menina inocente já não mataram pra fazer esses idiotas de barro?

Que vassoura? Ah, é. Então. O idiota não vê batente de porta, cadeira, prateleira, nada. Você tem certeza que ele vai derrubar a casa, mas de repente ele para de varrer. Olha para a vassoura como se nunca tivesse visto aquilo, daí olha em volta, procura você e vem ficar do seu lado. Segurando a vassoura.

O filho da puta esquece como a vassoura funciona, entendeu!!? Ele esquece enquanto está usando ela! Ele esquece como varre, enquanto está varrendo! Ele só lembra que te ama, e aí vem ficar do seu lado.

Um golem é uma das coisas mais inúteis do mundo da magia. Ninguém te diz isso, mas todo mundo sabe. O sorrisinho no canto da boca dos velhos magos, quando você diz que pretende fazer um, deveria servir de pista, mas você está tão afoito na busca de conhecimento, de poder, que esquece de considerar o óbvio. Pfff.

Olha. Golems tem duas funções: intimidar as pessoas, e te carregar por aí. Isso eles fazem bem pra caralho. Acho até que ele ficam felizes quando te carregam, afinal o putos estão com o seu amor em seus braços, não fica melhor. Ainda bem que fiz aquele sem pau.

O problema é que um mago de respeito não quer ser visto por aí sendo carregado por um gigante de barro. Na vila o povo comenta essas coisas, sabe? Os adultos só dão aquele sorrisinho maroto, mas as crianças, cara, as crianças riem mesmo. Por isso que eu deixo elas com dor de barriga.

Claro! Pra alguma coisa os demônios tinham que servir, além de tomarem toda a minha cerveja. E o aguardente. Coisinhas fedorentas...

Presta atenção meu jovem. Pare de estudar agora mesmo, e vá pegar uma espada, vá aprender a lutar, vá pilhar, estuprar e saquear, não cometa os mesmos erros que eu cometi.

Não. Estou cansado. Amanhã falamos disso. Vou para casa. Claro que não. Esse é o mesmo. No final a gente se apega com os bichinhos,  e na minha idade as pernas já não funcionam tão bem, é melhor ser carregado montanha acima do que fazer esse tipo de estrepolia na minha idade.

Além disso como você acha que eu ia levar esse barril de cerveja até os demônios lá em cima? Com magia? Faça me o favor, hein?

Talvez. Amanhã. Ou depois, aí falamos sobre evocação de demônios. Criaturinhas desprezíveis. Odeio eles.

E? Uma coisa é odiar, outra é deixar eles sem cerveja. É como no livro daquele soldado "tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que conjuras".

Amanhã. Adeus meu jovem.

Hã?

Sim. É um pouco confortável sim, não vou negar, mesmo os braços sendo de barro.

Tchau.

Vambora idiota, e não me balance que eu bebi pra caralho. Isso, traz o barril também. Vamos logo.