As Aventuras do Homem Solteiro III

Voltando para casa, 22:45, com fome, repasso mentalmente o conteúdo da geladeira.

"Sobrou maminha ao molho madeira, ou tão molho madeira quanto aquele saquinho da Knor ou da Maggi disserem que é. Ninguém pode chamar de molho madeira um pozinho sem champinhons dentro dum saquinho. Mas é o que tem. E feijão. O arroz acabou e não vou fazer arroz uma hora dessas. Mas tem queijo prato. Se tivesse pão eu faria um sanduíche."

Passo uns quilômetros me remoendo sobre passar na padaria. Cansado queria chegar logo em casa, comer e dormir. O cérebro humano é uma coisa linda. Sob pressão ele me salva.

"Pão de forma! Legal. Tem pão de forma!"

Problema resolvido, evito a padaria e entro na garagem, já pensando no meu sanduíche de maminha com queijo prato.

"Deus tem formas estranhas de nos testar", é o que eu penso quando examino a geladeira. Não tem mais queijo prato, na gaveta de frios três fatias de peito de peru defumado agonizam.

Mas tem queijo branco. Bom... Não é bem um queijo branco. Quer dizer, é branco, mas não é o que eu esperava, eu esperava um queijo mineiro. Isso eu não sei classificar, provavelmente em muitos países isso nem pode ser vendido como queijo.

"Frescal Ultrafiltrado". Isso foi um engano. Não que eu tenha me enganado comprando, fui enganado. Supermercado. Uma moça sorridente, acho que acompanhada da mãe, me viu nos lacticínios escolhendo queijos e, quando passei perto desse, curioso com o que diabos poderia ser o "ultrafiltrado", me disse:

"É uma delícia. Especialmente essa marca".

Moça simpática. Sorri e coloquei no carrinho, sem pagar o mico de perguntar que porra era um queijo "Frescal". Fui procurar o café pensando se ela era super simpática ou se estava me cantando. É. Meu ego é desse tamanho.

Olho para o queijo, agora num pratinho na mesa da cozinha. "Frescal", aparentemente, é um menino de pullover, com o cabelo penteado para o lado e com gel, criado pela avó. Completamente frescal.

É óbvio, mesmo para um observador desatento, que este queijo está com grandes dificuldades em manter sua estrutura molecular. Dá para ver ele se concentrando. É quase líquido. Pense em um flan de queijo e você estará chegando perto da textura.

Nojento. Não interessa. Quase meia noite. Estou com fome, vou comer qualquer porcaria e dormir. Isso é um homem solteiro, um cara capaz de comer qualquer coisa que esteja dentro da geladeira e que não pareça que vai tentar te morder.

Pego a maminha, fatio e coloco as fatias no microondas. Cheiro delicioso. Sabe-se lá o que tem naquele pozinho, mas disfarça bem um molho madeira.

Desfio as fatias para o recheio. Corto o queijo. (Bem... É mais aperto o queijo com a faca e ele espirra numa fatia, mas você pegou o espírito).

Suspiro deprimido com aquela imitação de queijo, mas a fome sempre derrota o bom senso, pego o pão de forma, está no finzinho, últimas fatias. Estes vão ser os dois últimos sanduíches deste pacote. Coloco as fatias deitadas na sanduicheira, para posicionar o recheio, quando reparo na decoração verde brotando nelas.

Uma alegre colônia de fungos prospera naquela parte fundamental do meu jantar. Ótimo. Não tem pão. Saco.

Olho em volta. Puta que o pariu. Não tem pão. Caralho.

E agora.

Tem maminha. E tem feijão. E a coisa branca e mole que me venderam como queijo. Penso na moça simpática do supermercado. Seu sorriso não era flerte, nem simpatia. Era uma pegadinha. Troll de supermercado.

Queria lembrar do rosto dela. Poderia indicar uns drinks para ela na seção de produtos de limpeza.

Panetone. Ali na prateleira. Seis e cinquenta. Não é Bauducco. É da estrada. Do posto. Só seis e cinquenta. A embalagem traz escrito "Panetone de frutas". Que bom. De frutas. Assim ninguém se confunde com o Panetone de, sei lá, carnes.

Panetone de carnes.

Uma idéia louca começa a se formar na minha cabeça, o gourmet que mora no meu coração sorri com uma lembrança da adolescência. Um evento lendário. Eu estava no colegial e tenho amigos que ainda não me perdoaram.

Outro eu, outro lugar, outro tempo e outro dilema gastronômico.

O último pãozinho. De um lado geléia de amora, do outro manteiga com sal. Um sanduíche. Um clássico. O pão com manteiga e geléia.

Minha mãe entra na cozinha, me vê com o pão no pratinho e diz decepcionada: "Ah, que pena. Eu tinha guardado o último bife à parmegiana para você comer com esse pão".

Mães. Sabem falar com o coração da gente.

O último pão. O último bife. Um dilema. De um lado manteiga e geléia de amora, do outro carne, queijo e molho de tomate. O que fazer?

São estes momentos que transformam meninos em homens. Tempos desesperados, medidas desesperadas.

Aqueço o bife no microondas, depois carinhosamente, o deposito no meio do pão com manteiga e geléia.

Minha mãe tem os olhos arregalados. Minha irmã entrou na cozinha e me olha emudecida. Deve ser respeito, imagino.

Um sanduíche para reinar sobre todos os sanduíches. Um jovem gourmet se erguendo para o estrelato. O nascimento de uma lenda. Mais tarde, quando elas contarem esta história ao meu pai, ele terá dificuldade de acreditar em tudo.

Uma lenda.

Uma história que me perseguirá por décadas, gravada na memória dos que me viram comer e gostar do sanduíche-lenda.

Tantos anos depois, aqui estou eu de novo. Outro lugar, outro tempo, outro eu. O mesmo dilema.

A mesma coragem e imaginação.

Uma fatia de Panetone seis e cinquenta, com frutas (!), maminha desfiada ao molho madeira sobre essa fatia, queijo Frescal Ultrafiltrado sobre a maminha, outra fatia do Panetone cobrindo tudo.

Fecho a sanduicheira. O cheiro de molho madeira e Panetone se mesclam no ambiente, a luzinha verde acende desafiadora, está pronto.

Jantar.

Delícia.

Alimentado e feliz vou dormir. Antes de adormecer um pensamento cruza minha cabeça: "ninguém é gordo porque pesa muito, nem porque come muito. Não. Isso é o que o senso comum diz. Gordo é um jeito de pensar. Gordo é um jeito mágico de experimentar a comida"

Com a barriga cheia e um sorriso, adormeço.