As Aventuras do Homem Solteiro II

Eu nunca entendi direito essa história de "relatos de sobreviventes". Sempre achei que esse povo que se mete em enrascadas e consegue sair delas era só uma gente exibida, com necessidade de atenção. E que pra começo de conversa não devia ter ido passear perto dos leões ou da borda do precipício. Ledo engano.
Há um elemento de comunidade nos relatos dos sobreviventes, não é um auto elogio.

Longe disso.

É um tipo de conto de precaução, uma generosidade com o semelhante. Uma partilha que se faz após se escapar de uma situação limite na qual se é jogado pelo destino. Em segundos você se vê em um confronto que parece desafiar o máximo da sua força, da sua capacidade de superação.
Um perigo real para sua vida, algo que te leva muito além do que você julgava ser capaz de enfrentar, mas que, mesmo assim você enfrenta. Escapa. Sobrevive.

Vivo você contempla sua experiência, revive o pesadelo, segundo a segundo. Um terror que não termina, está sempre lá, quando você fecha os olhos, rosnando, espreitando.

Escrever sua história, contar este relato, agora eu sei, não é uma bravata, não é um apelo desesperado por atenção. Não. É amor. Amor ao próximo. O sobrevivente vê o mundo com outros olhos. Com ternura, eu imagino, ele deseja que sua história nunca mais se repita. Eu desejo.

E esse desejo queima na sua alma, o desejo de que mais ninguém precise trilhar o seu caminho. Nem amigos, nem mesmo os inimigos, há um limite de quanto mal se pode desejar para alguém, e há, claro, aquilo que não se desejaria a ninguém.

É esse sentimento que motiva o meu relato deste confronto. Hoje eu fui atacado, minha carne cortada, meu sangue, para meu desespero, jorrando diante dos meus olhos, como que vítima de um golpe afiado de espada. Por muito pouco escapei, por muito pouco me mantive acordado naquele mar de vermelhidão que escapava da minha pele.

Em nome de tudo que é mais sagrado eu lhes peço: tomem muito cuidado com a tampa do Leite Condensado.