As Aventuras do Homem Solteiro

Eu me sinto responsável pelas coisas que nascem e florescem na minha geladeira, por isso, embora não interfira, eu procuro prestar atenção nelas.

Hoje eu voltei de viagem e fiquei um pouco alarmado.

Tudo leva a crer que as árvores de champinhon que cresciam em meia pizza da segunda prateleira foram devoradas pelo queijo branco da gavetinha de cima.

Não é um queijo comum, entendam, é um queijo cheio de ambições.

Ele nasceu branco, mineiro, mas nas últimas semanas estava claramente se transmutando em um parmesão (embora pessoalmente eu estivesse torcendo por um Gouda, talvez um Emmental, adoro um Emmental!).

Seja como for, não vou ter oportunidade de provar seus frutos com meu parmesão novo, elas foram dizimadas, provavelmente por ele.

Está um clima estranho naquela geladeira. Maionese, mostarda e catchup estão encolhidos num canto como se eu tivesse reparado em seus prazos de validade.

Lá em baixo, na gaveta, o berçário onde nascem todos aqueles brotos de cebola e batata, parece mais uma trincheira. É óbvio que eles passaram os últimos dias tentando impedir o queijo de entrar.

Isso não teria acontecido na época do velho e sábio molho Shoyo, com um Kung-fu daqueles ele mantinha a paz naquela geladeira. O frango assado que se meteu a engraçadinho no último verão que o diga.

É uma pena que ele tenha virado pedra muitas estações atrás. Bom. Um homem tem que arcar com as suas responsabilidades. Acho que vou limpar aquela geladeira. Eu...

Isso foi um rosnado? Meu queijo está rosnando na geladeira?

É. Eu acho que posso limpar a geladeira outro dia.