O segredo de Romero Britto

Em seu apartamento em Nova York, em um quarto trancado à chave, secretamente Romero Britto faz belas ilustrações realistas. Em preto e branco.

Ele olha para o desenho de uma menina negra sentada no colo da mãe.

A pequena tem o olhar triste e ao mesmo tempo uma intensa carga de esperança, a luz é perfeita e naqueles olhos se pode imaginar o universo. A mãe é pobre, mas há em sua figura rígida uma altivez, um tipo de orgulho contido de quem insiste em sobreviver contra todas as chances, mesmo assim ela tem o olhar vazio de quem a vida derrotou. O cão ao lado delas, de raça indeterminada, dorme um sono tranquilo que Deus só permite aos cães.

Emoção, composição, técnica e crítica social se encontram ali, a imagem evoca o belo e faz pensar. "É arte" ele pensa, "pura, simples, forte e bela. Arte". É sem dúvida o seu melhor trabalho até hoje. Ele admira mais um pouco a intensidade negra do Nanquim e põe o desenho de lado. Sorrindo Romero Britto suspira pensativo, olhando seus belos desenhos realistas sem se fixar em nenhum. São tão lindos e ele os ama tanto.

Ele sente uma ponta de pena quando vê a máquina barulhenta picotar primeiro o cão e depois a mãe e a menina. Mecanicamente ele pega o desenho de um velho carroceiro, puxando um carrinho de "recicláveis" que parece tocar o céu. Em segundos a figura em preto e branco desaparece em pedacinhos que caem na lixeira embaixo da fragmentadora.

Mais quatro desenhos somem e Romero termina seu ritual semanal. Enquanto dá o nó no saco de lixo com o que foram seus desenhos pensa sobre como a arte é "pessoal". Morrerá sem conseguir entender como tantas pessoas possam acreditar que a arte pode ser comprada. Mas ele não reclama. "Um homem precisa ganhar a vida, e existem formas bem piores de se fazer isso".

Lá fora, do outro lado da porta trancada, espalhadas pelas paredes do seu belo apartamento em Nova York, formas geométricas e cores primárias gritam, eternamente presas por grossas linhas negras.