SÃO PAULO, 01 DE SETEMBRO, 22H30

Eu sempre estive morto. Talvez não sempre, mas desde muito cedo. Sempre me orgulhei de ter morrido ainda bem jovem. Sempre me comportei como um morto. Sempre trabalhei em um emprego de merda. Sempre segui regras de merda. Sempre aceitei um casamento de merda (ela era linda, como todas as mortas na TV). A TV. Sempre. Sempre a TV. Sempre comprei toda merda que aparecia na TV. Sempre devi dinheiro para o banco. Sempre demorei para dormir, olhando o teto com medo do próximo dia. Eu sempre, desde que me lembro, estive morto.

Hoje isso começou a mudar.

Hoje um vivo me mordeu.

Eu entendo as consequências disso e sei que não há uma cura. Este diário não é o grito de desespero de um condenado. Sim eu estou com medo. Sim eu vejo claramente o que está a minha frente. Este diário é minha forma de lidar com isso, documentando o processo eu espero que meu fim seja menos doloroso. Eu entendo as consequências, eu sei que o diário não adiantará. Nada. Não adiantará nada. Mas um vivo me mordeu, e eu preciso fazer alguma coisa além de esperar pelo fim.

SÃO PAULO, 01 DE SETEMBRO, FOI POR VOLTA DAS 8H00 QUE ISSO ACONTECEU.

Eu estava preso no trânsito com os outros mortos, como em todos os dias. Um trânsito enorme. Uma velha mal encarada falava ao telefone no carro ao lado. No da frente não podia ver quem era, mas a pessoa provavelmente digitava no celular.

Parado no carro eu observava as pessoas mortas. Carros são os lugares onde os mortos vão para falar ao telefone e colocar o dedo no nariz. Janelas fechadas. Em cada rosto a hostilidade de quem está atrasado e fracassado. Os melhores carros levam os mortos mais rígidos, mais gelados, mais cinza. Todo morto gostaria de ser um deles. Um morto especial.

Um flanelinha veio em minha direção, daqueles que penduram balas no retrovisor. Coxeando, aleijado o desgraçado. Aleijado e sujo. Roupas velhas. Velhas e sujas. Um desgraçado. Cor estranha.

Meu vidro estava fechado, mas eu apertei um pouco o botão, por reflexo e segurança. Virei o rosto quando ele se aproximava. Sem contato visual. Eu não compro balas, eu não dou esmolas. Para um filho da puta desses eu nem olho. Eu estou morto. M-o-r-t-o. Isso precisa ser respeitado.

Mas ele passou por mim, correndo - com aquela perna coxa - e parecendo assustado. Os carros da frente pareciam estar dando ré, mas não havia espaço. De repente todas as luzes de ré acenderam, mas não havia para onde ir.

No carro da frente o cara do celular parecia não estar me vendo, eu buzinei com força, xingando a vaca da mãe dele, mas foi inútil.

Todos estavam buzinando.

Então eu abri o vidro, pronto para xingar e ameaçar meu semelhante morto, ele estava claramente apavorado, eu o odiei imediatamente. Fraco e cuzão. Eu iria apavorar esse corno. Talvez eu até tivesse aberto a porta para tomar satisfações. Era um morto velho. Eu posso bater num velho morto, não há perigo.

"Um vivo!", foi o grito que ouvi atrás do meu carro quando abri a janela, subitamente entendi as luzes de ré, me virei para trás para ver de onde vinha o vivo.

O absurdo de um vivo no meio da rua, esse governo é mesmo uma merda. Que tipo de nação sub-desenvolvida tem vivos no meio da cidade. É um constrangimento.

Eu não tive certeza do que aconteceu depois. Eu devo ter olhado para o lado errado, o morto não vinha de trás do carro, vinha da frente.

"Por isso a ré!", foi a última coisa que pensei quando ela mordeu meu pescoço.

Ela me mordeu.

Ela estava viva e me mordeu. Ela me mordeu. Naquele momento terminou para mim. Ela me mordeu. Ela me mordeu. Caralho, ela me mordeu, e ela estava viva.

SÃO PAULO, 01 DE SETEMBRO, 23H45.

Eu voltei para casa. O frio justificou o cachecol no trabalho. Ninguém viu a mordida na confusão do trânsito, ninguém viu a mordida no trabalho.

Dizem que os vivos percebem outros vivos. Mentira. Eu não posso atrair vivos, não eu. Eu sou um MORTO! MORTO PORRA!

Estou com medo. Meu coração. Acho que hoje à tarde senti meu coração bater uma, talvez duas vezes. Depois parou. Eu fiquei tão assustado que corri para o banheiro. Me sentei no vaso e fiquei parado. Tremendo.

Agora estou escrevendo e tem lágrimas saindo dos meus olhos. É nojento e estranho. Eu quase agradeço pela minha sorte. Se essas lágrimas saíssem no trabalho o que poderia ter me acontecido? Nem gosto de pensar.

Dormir. Preciso ir dormir. Talvez eu não me transforme, talvez eu não viva. Não eu. Eu não vou ser um vivo. Já ouvi falar de gente que vive e morre de novo. Não é impossível. Pode acontecer. Eu sei que pode. Meu Deus me ajude a ficar morto. Dormir. Preciso tentar dormir. Preciso olhar o teto da minha cama.

SÃO PAULO, 02 DE SETEMBRO, 10H15.

Acordei atrasado. Muito atrasado. Ainda estou morto, mas me sinto diferente. O mais estranho é que dormi logo que deitei. Eu não sou assim. Minha ex, era a única morta que já conheci que ficava mais tempo do que eu se revirando na cama, sem dormir.

Acordei sobressaltado. Não ouvi o ruído áspero do despertador. Ele estava ligado, deve ter tocado por quase uma hora. Eu não ouvi. Como?

Acordei sobressaltado, meu coração disparou e eu acordei. Ele ficou uns bons 5 minutos batendo e depois parou de novo. Eu ainda não consegui parar de tremer. Não sei o que estou sentindo, mas sei que já não estou tão morto. Minha pele parece mais quente. Quente não. Não estou quente. Mas também não estou gelado. Minha cor também parece estar mudando. Mais claro? O cinza é sempre cinza, mas está mais claro. Parece a pele do pedinte no farol. Um cinza de um morto recente, não de um morto de décadas, como eu. O pior é a marca. A marca no meu pescoço está... PUTAQUEPARIU, PUTAQUEPARIU, PUTAQUEPARIU, PUTAQUEPARIU, PUTAQUEPARIU!

De novo! O coração, caralho, o coração bateu de novo. Não disparou, mas ficou batendo, vários minutos até parar. Como eu vou trabalhar? É muito alto. Eu sei que é. Ensurdecedor. Todos no escritório vão me ouvir com o coração batendo.

O pior é a marca. A marca no meu pescoço está rosada. É um ferimento feio. Parece pele de vivo. Rosada. Meus olhos estão vazando de novo. Meu Deus por quê eu? Por quê comigo? Eu acho que estou virando um vivo...

SÃO PAULO, 02 DE SETEMBRO, 13H20.

Não estou no trabalho, estou no inferno. Cheguei tarde. Botei a culpa em um acidente de trânsito. Disse que matei um motoqueiro morto. Os risinhos no rosto dos colegas é visível. Todos acham que eu vou me foder. Pagar cestas básicas para a família do morto morto. Um colega me explicou com grande sadismo que é isso que o juiz faz, "você ganhou uma família de pobres para sustentar" foi o que ele disse.

Se o filho da puta soubesse que é mentira... Se ele soubesse o motivo real duvido que se controlasse para fazer uma dancinha da vitória.

Quem é essa gente que só quer ver os outros se foderem?

Eu sou assim? É isso que é estar morto?

Todos disseram que eu parecia muito mal. Atribuíram à preocupação com as cestas básicas. Ninguém perguntou o que foi feito do motoqueiro, nem se ele tinha nome.

Eu mesmo tendo inventado a mentira estou com pela do motoboy. Há algo errado comigo. É isso que é ser vivo?

SÃO PAULO, 02 DE SETEMBRO, 16H00.

Faz três horas que estou pensando na viva que me mordeu ontem. Ela era quente. Quente e macia. Estou pensando na boca dela no meu pescoço. Eu... Eu não sei mais o que estou pensando. Tenho que sair desse lugar. Cemitério. Não é escritório. O lugar que se enche de gente morta não é escritório, é cemitério. Cemitério.
Acho que os olhos dela eram castanhos. O que acontece com os vivos quando os mortos fogem deles?

SÃO PAULO, 02 DE SETEMBRO, 17H15.

Expediente quase no final. Eu cantarolei uma música. A morta da baia do lado levantou com cara de ofendida. Está perto da janela, cochichando com uma gorda. Elas olham para mim com cara de nojo e riem.

SÃO PAULO, 02 DE SETEMBRO, 19H00.

Não consigo assistir TV. Toda noite eu assistia TV, agora essa coisa dentro de mim não consegue ficar nem um minuto olhando o aparelho.
No caminho de volta eu parei o carro para um grupo de pessoas atravessar a rua, o farol estava para mim mas eu parei. Eles atravessaram, mas ficaram me olhando com caras estranhas. Uma menininha pequena, com bochechas rosadas, no colo de uma morta sorriu para mim. Sorri de volta. Bonitinha e fofa.

SÃO PAULO, 02 DE SETEMBRO, 20H40.

Sem conseguir me concentrar na TV decidi arrumar a casa. Percebi que tenho um monte de tralhas que não preciso. Dei uma limpa. Vou jogar esse monte de tranqueira fora. Por que diabos comprei essa merda toda?

Fico pensando naquela viva. Tinha tanta coisa atrás dos olhos dela. Não era como os olhos opacos dos mortos, havia... Brilhavam intensamente. Havia vida ali.

SÃO PAULO, 02 DE SETEMBRO, 22H50.

Faz duas horas que meu coração começou a bater e não parou mais. Minha cabeça está em polvorosa. Não vou trabalhar amanhã. O cemitério vai ter que se virar sem mim. Não vou trabalhar nunca mais. Não naquilo. Sinto vontade de desenhar. A noite está bonita. Quero sair para uma caminhada mas tenho medo. Estou esquentando e minha pele está quase toda rosada, só as extremidades das mãos e pés permanecem cinza.

Eu quebrei a TV. Levantei do sofá, fui até a parede onde ela estava pendurada, coloquei a mão por baixo da tela e a empurrei para cima, soltando do suporte. Continuei empurrando para cima, ela encostou na parede, se desprendeu, virou para frente e caiu. Pendurada pelo fio de força bateu primeiro na parede e depois no chão. Vi ela bater, quebrar e apagar quando o fio soltou da tomada. Era uma TV cara. Me senti indescritivelmente bem.

Vou dormir. Acho que estou cansado.

SÃO PAULO, 03 DE SETEMBRO, 7H15.

Acordei cedo. Me sinto ótimo. Viver não é o que eu esperava. Meu coração bateu a noite toda no peito, minha pele está quente. Mas o que é que eu esperava, afinal? Eu estou... feliz?

Saí para dar uma volta. A pé. Evitei as pessoas mortas, ninguém me notou. Na ida dei dinheiro para a velhinha que mora numa caixa de papelão aqui na esquina, na volta trouxe para ela leite e alguns pães
que comprei na padaria. Deixei meu casaco com ela. Ela não entendeu mas agradeceu. Ela chorou. Eu acho que chorou. Não dá para ter certeza.

SÃO PAULO, 03 DE SETEMBRO, 20H15.

Era verdade. Era tudo verdade. Os vivos se reconhecem. Se atraem. Encontrei a viva que me mordeu. Nos reconhecemos de longe. Ela havia escapado dos mortos naquele dia.

“É fácil”, ela disse, e completou “o que mais apavora os mortos, são os vivos”.

"Você parecia pronto para acordar", foi o que ela me disse quando perguntei por que havia me mordido. Muito bonita. Ela é muito bonita. E quente. E macia. Ela está viva e por culpa dela, eu agora também estou.