Ouvindo Vozes

Voz 1: Mas isso é loucura! Ninguém faz isso, as pessoas não agem assim.
Voz 2: É claro que é loucura, por isso tem um gosto tão bom.
Voz 1: Você não tem medo? Pode dar tudo errado, você pode se arrepender.
Voz 2: Claro que eu tenho medo.
Voz 1: Então...?
Voz 2: Não. Eu tenho medo de me arrepender de não ter tentado.
Voz 1: É uma aposta alta essa sua. Eu jamais faria isso. Não assim, não tão rápido.
Voz 2: Tá. Mas você não viu o que eu vi. Eu tive um vislumbre de algo que vale a aposta alta. Se você chegasse perto de algo parecido ia é achar muito lento, não rápido.
Voz 1: Você é completamente louco. Você sabe disso né?
Voz 2: Eu sei. Mas eu acho que ela também é. Você não entenderia.
Voz 1: Você é arrogante. Eu também já me apaixonei.
Voz 2: Sou. E se apaixonou nada. Você é certinho, bege, bem baunilha. E eu também achava que tinha me apaixonado antes.
Voz 1: E não tinha?

(pausa)

Voz 2: Não. Acho que não.
Voz 1: Então é a primeira vez do Sr sabe tudo?

(pausa bem mais longa. A Voz 1 balança a cabeça, dá uma longa tragada no cigarro e solta a fumaça olhando para cima, fazendo um espécie de torre etérea com a fumaça. A Voz 2 olha para nada em especial, como se estivesse pensando, lembrando. Seu rosto parece se entristecer por um momento, e então se ilumina, como se tivesse lembrado de algo).

Voz 2: Caralho! Você tem razão, acho que é sim.
Voz 1: Bom. Você é louco. E um idiota. E vai com certeza se foder, mas acho que tem que ir em frente.
Voz 2: Sério?
Voz 1: Sério. Até o senhor baunilha aqui entende que esse sentimento é... irrefreável.
Voz 2: Porra ninguém fala "irrefreável", por isso você não tem amigos.
Voz 1: Você pegou a parte que eu te chamei de idiota, né?
Voz 2: peguei sim, seu babaca.

(pausa)

Voz 2: Bom obrigado pelo conselho, mas eu acho que ia pular de qualquer jeito.
Voz 1: Eu sei. Você é louco.
Voz 2: É. Pode ser. Mas eu acho que ela também é.

(a Voz 1 cruza a perna e apaga o cigarro na sola do sapato. A Voz 2 olha para cima, sem fixar nada, sorrindo).