Uma carta aos meus amigos

Eu me lembro da Profa Ilana Blaj na sala Caio Prado absolutamente lotada. E eu me lembro do Prof Jacob Gorender, um simpático velhinho de aspecto frágil, que escondia a alma de um homem de convicções firmes e que nunca se dobrou. Eu lembro dele no auditório, inabalável ao lado dos fracos, convicto sobre a razão em Marx e da bobagem que era o anunciado "fim da história".
Eu me lembro do Prof István Jancsó, que me deu meu primeiro emprego com computadores - no CAPH - e assim determinou minha carreira, lembro dele fumando na sala de aula (como a Ilana, como todos eles...). Me lembro do István na mesa de concreto da lanchonete, em seus últimos anos, eu me lembro dele de boina sonhando com a biblioteca Mindlin, que ele não viveria para ver concluída.
Eu me lembro da Profa Eni de Mesquita Samara no CEDHAL, lá no final do corredor.
Eu me lembro do Prof Milton Santos, que do alto de sua estatura de gigante intelectual, era gentil como um morador de cidade pequena, e saudava simples alunos de graduação com um sorriso e um "boa tarde" ao passar por nós na rampa. Não sei vocês, mas eu, a cada boa tarde daquele homem, me sentia por algumas horas um sujeito realmente importante.
Meu Deus e eu me lembro muito bem do Prof Nicolau Sevcenko, lembro dele naquelas aulas que eram ótimas, mas que me deprimiam um pouco, sempre que eu me dava conta de que nunca seria tão bom quanto ele. Lembro também de suas aulas no gramado, atrás do prédio, embaixo de uma árvore. Só ele faria isso.

Divergentes e diferentes que fossem entre si, essa gente me ensinou a pensar (eles e os colegas que lhes sobrevivem). Minha vida, quem eu sou, e principalmente quem eu posso ser é uma consequência daqueles quatro pilares azuis e das rampas que eles abrigam. E há uma metáfora bonita naquelas rampas, para estar entre aqueles mestres, você precisava ir além do nível do chão, ir às salas de aula, caminhar naquelas rampas era, de certa forma, se elevar.

Eu me lembro de todos eles. Eu me lembro deles com lágrimas nos olhos, eu sempre soube que ficaria velho, e isso nunca me importou muito, mas eu nunca imaginei que ficar velho fosse acompanhado dessa solidão tão grande.

Desde que eu me formei eu penso naquele curso como um tipo de acordo com o demônio. "Então você quer entender o mundo? Seu desejo é compreender os homens?" Desejo concedido, você entende, e então é obrigado a viver preso neste mundo, com aqueles homens. O demônio vai embora rindo, satisfeito consigo e sua bênção torta.

Não sei vocês, mas eu não desejaria de outra forma, nem por um segundo.

Cada um de nós, secretamente, enganou o demônio. O que ele não via, eram as luzes iluminando esse nosso mundo sombrio, luzes que sempre garantiram nossa esperança no futuro. Luzes que plantaram uma faísca em cada um de nossos então jovens corações.

Mas agora nós estamos envelhecendo, perdendo os nossos mestres, e eu não sei se já estamos prontos para isso. As luzes estão se apagando, uma a uma, e eu ainda tenho muito medo de ficar neste mundo, sem as luzes, no escuro.

Em algum ponto, por respeito e por gratidão, nós teremos que ser as luzes, e nós teremos que semear as faíscas.

O passado está morto, e a História, todos sabemos, se ocupa em salvar o futuro. Salvar o futuro para a vida dos nossos filhos, mas também para a memória dos nossos mestres.

Saudades.