Mexericas

Dona Maria odiava mexericas. Ela queria conhecer a pessoa que insistia em mandar mexericas para a merenda. Gostava de por um rosto nas poucas pessoas que odiava. Quarta-feira. Quarta-feira era o dia da mexerica, quarta-feira era o dia de limpar o patio. As crianças adoravam as mexericas. Dona Maria não se lembrava de já ter visto uma criança comendo uma, mas não era por isso que gostavam delas, era pela guerra. A guerra de mexericas da quarta-feira, toda quarta-feira.

“Toda, que Deus perdoe, maldita quarta-feira”.

Para Dona Maria, para Bianca e para a menina Cinara, o que sobrava era limpar o campo de batalha quando o sinal determinava estridente que a guerra acabara. As “serventes” não entendiam por que isso acontecia, e isso só acontecia com as mexericas. Aquela não era a pior escola. Não. Nem de longe. Era uma escola central, não era daquelas afastadas, aquelas mal cuidadas onde os netos de Dona Maria estudavam. Aquela era a escola dos “bacanas”. Bom, pelo menos do tanto que dá para ser “bacana” numa escola púbica em Osasco. “Em Oz”, como as crianças diziam.

Mas a quarta-feira era parte da vida. “A quarta-feira é parte da vida Maria”. Era a frase que Dona Selma dizia sempre para consolar Dona Maria. Dona Selma era a diretora. Já fazia uns quinze anos. Selma vira de tudo, mesmo assim, nada a havia preparado para a guerra da quinta-feira.

Naquela quinta-feira chegou o lote de livros da quinta série. O Governo do Estado já vinha faz uns anos enviando livros para os alunos. Não para a biblioteca, para os alunos.

“Prezado(a) aluno(a),

Você está recebendo três títulos de autores consagrados. Esses livros são seus, para a formação de sua biblioteca. Eles encerram muita sabedoria e beleza. Nos romance, contos, poesias e peças de teatro os autores contam histórias incríveis, nos colocam em contato com faces do mundo que jamais teríamos oportunidade de vivenciar ou conhecer. (...)”

Era assim que começava o texto escrito no verso da caixa de cada “kit”. Cada aluno recebeu dois quites. Quinta série, crianças de onze anos, livros coloridos, ilustrações de encher os olhos, textos leves e instigantes. Nem o Professor Rafael Lobato, o comunista sindicalizado que dava aulas de história, falava mal do governo neste dia. Livros de qualidade – de presente! - para TODOS os alunos da rede pública do Estado de São Paulo. É, até o Lobato admitia – entre os dentes – que essa era uma “boa iniciativa”.

Todos os alunos receberam seus quites. Em cada carteira, pela manhã, duas caixas. Seis livros. Seis livros lindos. Impressos com exclusividade, com um selo do governo do Estado. Comprados em pregão público, preços muito baixos negociados com as editoras, por conta da escala. De graça e chegando nas mãos das crianças. Outro Lobato, o paulista Monteiro Lobato, um dos autores num dos quites, disse certa vez que “um país se constrói com homens e livros”.

Lobato era um idiota.

Naquela tarde, na hora da merenda, não houve guerra de mexericas. As crianças arrancaram as páginas dos livros. Livros de capa dura. Livros ilustrados, coloridos. Arrancaram as capas. Arremessaram os livros. Arrancaram as páginas, amassaram e atiraram uns contra os outros. Na quinta-feira não tem mexerica. Na quinta-feira foi a guerra de livros.

Lobato via com lágrimas nos olhos, lá do alto, da janela da sala dos professores. Professor de história ele só pensava no outro Lobato. Eles tinham mais em comum do que o nome. “Dois idiotas com o mesmo nome”, pensava ele.

Nem todas as crianças participaram do que a professora de biologia chamou de “arrastão de livros”, sempre há dissonância. Uns dez, talvez doze alunos, em toda aquela escola não participaram. Abraçados aos seus livros eles repeliam os colegas que, agora sem livros, queriam pegar os seus para amassar, rasgar e arremessar.

Não os livros da pequena Juliana. Ninguém tiraria o Menino Maluquinho das mãos da Juliana, nem o Saci. Nem mesmo esse Mário Quintana que ela não sabe bem quem é, mas que o passarinho na capa anuncia coisas boas. Não. Os livros da Juliana vão pra casa com ela. Custe o que custar, nem que ela tenha que enfrentar a Jaqueline.

Dois mundos. Jaqueline e Juliana. Juliana tem o cabelo preto e liso, branquinha com um boquinha vermelha. Lembra a branca de neve. Se veste com roupas simples, mas com o primor de uma boneca. Jaqueline também tem roupas simples, mas são velhas e puídas. Jaqueline é maior que Juliana. Negra, com o cabelo bagunçado, não tem os traços de boneca Disney da Juliana.

Há um conflito antigo aqui. Algo que vai se resolver no arrastão de livros. Juliana é estudiosa, querida pelos professores e mesmo pela Dona Selma. Jaqueline é um problema. Violenta, mal educada, as piores notas. Tratada como “caso perdido” na sala dos professores.

- “Me dá esses livros idiotas!”, esbravejou.

Juliana não era dada a confrontos, mas esse era um caso importante.

- “Não. Você tem os seus. Esses são meus”, respondeu meio desafiadora.

Ela havia lido um conto de uma menina que nunca conseguia emprestado o livro de uma amiga, a amiga sempre inventava um motivo para não emprestar. No final a mãe da amiga percebia a maldade da filha e meio que dava o livro para a menina. Juliana sabia que ela era aquela meniana. Ela era a heroína de sua própria história, e nunca ninguém que defendia livros perdeu. Essa era uma daquelas coisas que nunca aconteciam.

Jaqueline não lera esse conto. Jaqueline não lera nada. O nome do ônibus que pegava para chegar na escola era seu limite de leitura. E era difícil.

- “Me dááááááá!”, gritou Jaqueline bem alto, enquanto puxava os livros das mãos de Juliana. Juliana não era dada a confrontos. Mas, “pombas!”, aqueles livros eram dela. Ela fez o possível para segurar. O Saci caiu e foi rapidamente pego por outra criança que o amassou e rasgou, ao redor as demais gritavam: “Briga, briga, briga!”. O Menino Maluquinho se desfez em suas mãos. Puxado inclemente por Jaqueline.

Juliana fez então a única coisa que podia. Chorou alto e convulsivamente. De alguma forma, sem entender bem a razão, Jaqueline ficou ainda com mais raiva de Juliana. Os livros em suas mãos lhe davam raiva, nojo e ainda mais raiva. A escola era idiota, os professores, sua mãe, seu padastro, os livros. Todos eram idiotas. Mas os mais idiotas eram essas meninas bonitinhas, brancas, arrumadinhas. Jaqueline não era branca. Nem bonitinha. Mas Jaqueline tinha muita raiva. E era forte. Na escola ninguém dizia que ela era burra. Ela batia em qualquer menino ou menina que falasse qualquer coisa dela. Para ela. Com ela.

Os livros em suas mãos lhe davam raiva e nojo. E ainda mais raiva. Tanta raiva que ela começou a jogar os livros, com toda força na Juliana. “Você quer seus livros? Toma os livros sua burra!”. Ela jogava e dizia “burra!”. “Toma o livro sua burralda!”.

Era uma senha. Logo todos as crianças no pátio estavam jogando livros contra a “burralda” e alguns outros nerds que não se moveram rápido o bastante para fora dali.

Meu Pé de Laranja Lima acertou o lábio de Juliana, com a lombada. A força cortou aquela boquinha de princesa. Um corte feio e profundo, que dividiu seu lábio superior, sangrou muito e manchou a camiseta branca, limpa e bem passada que a menina usava.

Não. A guerra dos livros não acabou bem. Os pais foram chamados, por sua vez a polícia foi chamada, a mãe de Juliana faria um boletim de ocorrência. Jaqueline naquela noite apanharia mais do que o normal. Por dois dias não iria a escola, sua mãe não deixaria, até as marcas sumirem. Culpa da “burralda da Juliana”, pensaria antes de pegar no sono, enquanto chorava baixinho na cama para ninguém perceber.

No final de tudo Dona Selma ficou ali, olhando os livros destruídos. No canto do pátio o vento fazia um redemoinho de folhas. Normalmente eram folhas das árvores da rua, naquela tarde eram folhas de livros.

Se consolava pensando que pelo menos fora aqui dentro. O novo professor de Física, “como ele chama mesmo?”, disse que ontem passou perto de duas escolas que já haviam recebido os livros. Ele não conhecia as escolas, mas sabia que eram perto pelo estado das ruas onde passou. Cobertas de folhas rasgadas, amassadas e de livros destroçados.

Dona Selma pensava em Monteiro Lobato enquanto olhava o redemoinho no canto da pátio, “um Saci de páginas do Saci”. Foi quando ouviu uma vozinha vinda de baixo, á sua esquerda.

- “Dona Selma, eu posso fazer uma sugestão?”

Era o Felipe. Um rapazinho da quinta série. Negro, atrás de um óculos fundo de garrafa, que ficaria grande em um adulto. Felipe não era de falar muito. Só se manifestava se fosse convidado ou se achasse que valia o seu tempo.

- “Claro amor, diga.”, respondeu Dona Selma, se esforçando para mostrar um sorriso, que sabia não era convincente.

- “Eu acho”, continuou Felipe, “que seria melhor se vocês primeiro fossem na sala perguntando quem quer ganhar livros. Isso pouparia um bocado de dissabores”.

Agora Dona Selma sorriu de verdade enquanto pensava: “Dissabores? Que criança fala dissabores?”.

- “Vamos pensar nisso meu amor, vamos pensar nisso. Agora volte pra sala que você nem devia estar aqui.”

Felipe foi. Dona Selma ficou ali. Olhando os livros e pensando que essa não era uma opção. O governo mandava os quites para cada aluno. Não havia escolha. Não era uma opção. Ela não sabia bem o que pensar.

Na hora da saída várias mães a procuraram. Queriam doar os livros recebidos para a escola. “Não tem espaço em casa para livros, sabe?”. Dona Selma imaginava que não houvesse. “A televisão deve ser muito grande”, pensava sem dizer. Se os pais querem devolver os livros, o que dizer das crianças? Ela tentou pensar de quem era a culpa disso tudo e ficou muito cansada, sem chegar a nenhuma conclusão.

No pátio encontrou a Dona Maria. Ela estava parada olhando a desolação da guerra dos livros. Dona Selma ficou pensando no que dizer a servente. No final saiu com algo que lhe pareceu idiota no minuto que acabou de falar: “Pelo menos não são mexericas, né Maria? Mais fácil de limpar”.

- “Sabe Dona Selma, eu não estudei muito, mas me dá uns aperto no coração de vê as criança fazendo isso com os livro”, ficou um bom tempo em silêncio, olhando o saci de páginas do Saci se mexendo no canto perto do muro, por fim completou: “Acho que sobraram umas mexerica lá na cozinha, vou buscar umas pra mim, a sinhora quer uma?”

- “Maria, você odeia mexerica”.

- “Acho que não Dona Selma, acho que eu odeio é a guerra”.