É fácil esquecer do lixo

Voltava a pé para casa. Só duas quadras. Havia deixado o carro para lavar. Não morava ali há muito tempo, mas já havia reparado no pequeno açougue, não sabia que vendiam frangos assados. "Tem sim chefia, todo sábado, domingo e feriados. Dezoito reais com farofa e batatas. Sem miséria." A voz tentava soar simpática, mas estava claro que era um esforço. O sujeito era mal encarado, um olho meio baixo, o outro arregalado. Grande e meio curvado. Não era alguém que ele iria querer encontrar de noite andando na calçada. Fora uma compra de impulso. Ia fazer um risoto, al fungi, mas a preguiça e aquele cheirinho de frango assado haviam colocado a sacola em suas mãos. Estava feliz. Almoçou frango com batatas e farofa naquele sábado. O sujeito sombrio no açougue havia cortado a ave de um jeito estranho, devia ser novo naquilo. Quem afinal corta frango assado com um cutelo daquele tamanho? Não estava desmembrado, era mais um corte no meio, ao longo da coluna, e alguns cortes nas extremidades. O frango estava quase inteiro na embalagem de alumínio. Ele preferia não entender a anatomia da ave enquanto a comia, não era enjoado, mas tinha certa sensibilidade. Comer a ave inteira, daquela forma, parecia pouco civilizado. Bárbaro. Paciência. Não tinha nada para destrinchar a ave e duvidava muito que o fizesse, mesmo se tivesse o que quer que se use para descarnar uma carcaça de frango. Separou o melhor que pode de um pedaço bem grande com a faca, encheu o prato de batatas e cobriu tudo com farofa. Tinha quase meio frango ali. O pensamento o fez sorrir. Bárbaro, afinal. Sentou na frente da televisão com seu prato e comeu como o ímpeto de um grande felino. Comeu como um caçador. Cochilou em frente à TV. Teve um sono conturbado. Sonhou com um abatedouro de frangos. Uma máquina automática que vira certa vez em um programa de variedades. Os frangos eram presos pelos pés, a máquina andava, suas cabeças entravam em um cocho de água que os eletrocutava para desmaiarem, ao saírem da água desmaiados, as cabeças prendiam em um trilho com uma lâmina. Os corpos puxados para o alto e para o lado na lâmina. As cabeças caiam em um tonel. Virariam ração. Os corpos seguiam sangrando para a próxima fase da máquina, que os depenaria. Quando acordou não lembrava do sonho, mas tinha sensação de que comera muito. Estava pesado. Dormira torto. Seu pescoço estava doendo. Reparou na carcaça meio comida na mesinha ao seu lado. Com certeza atrairia moscas, se levantou para jogar tudo no lixo, mas pensou de novo nas moscas. Estava com preguiça de levar o lixo para fora. Ainda se pudesse sair de cueca... Se vestir só para levar o lixo era ridículo. Vida em prédio não era vida. Mas naquele calor logo os ossos começariam a cheirar mal. Resolveu a situação colocando o prato na geladeira. Depois jogaria fora, tudo junto. No domingo na hora do almoço abriu a geladeira em busca do frango, serviu-se novamente e olhou de forma enviesada para os restos do dia anterior, quase ressentido com o prato por ele ainda estar ali. Depois do almoço jogou tudo no lixo. Os restos de ontem e o que sobrara do almoço de domingo. Três dias seguidos de frango eram demais para a cabeça. E já estava com certo nojo daqueles ossos. Ficava pensando no frango vivo. Amanhã no almoço comeria picanha, já havia decidido enquanto raspava os pratos no lixo, e jogava junto o que ainda estava na embalagem. Desta vez havia decidido tirar o lixo logo após lavar a louça, mas o telefone tocou e se esqueceu. É fácil esquecer do lixo. Acordou no meio da noite com sede. Levantou para beber água, indeciso sobre culpar o sal das batatas do frango ou a calabresa da pizza. Nunca conseguia culpar a calabresa por nada. Adorava calabresa. Quando colocou a mão sobre o interruptor da cozinha ouviu um barulho. Um farfalhar. Imediatamente pensou: "O lixo! Esqueci de tirar o lixo!". É fácil esquecer do lixo. Parou a mão sobre o interruptor sem acender a luz. Barata. Quando acender a luz ela corre. Levantou um pé. Tirou um chinelo bem devagar com a outra mão, olhou na direção do lixo, e se preparou para a batalha. Acendeu a luz no exato instante em que percebeu que o barulho estava muito alto para ser de uma barata. O que ele viu gelou o seu sangue. Teve certeza que seu coração pulou um, dois, não, três. Seu coração pulou três batidas antes de disparar no seu peito com a força e a coerência de uma tempestade de granizo. Achou que ia desmaiar e começou a chorar quando percebeu que não desmaiaria. O lixo estava virado no chão, fora dele os ossos do frango se mexiam, tentando de forma ao mesmo tempo patética e aterradora ficarem de pé. Na sua frente uma ave meio comida, sem a cabeça e sem os pés, se arrastava resoluta e ameaçadora em sua direção. Queria fugir, mas o terror o impedia de se mexer, só conseguia chorar enquanto o cadáver do pássaro se aproximava, chorava e sentia uma enorme ânsia. Sentia os músculos vivos, a carne do frango, que se contorcia dentro de suas vísceras. É fácil esquecer do lixo.