José Saramago, meu professor de subversão

Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12.30 horas na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila.

Fundação José Saramago 18 de Junho de 2010

Com esta nota na primeira página do http://www.josesaramago.org/ confirmei que o único herói vivo que eu tinha, se juntou aos demais, saindo do tempo presente para entrar no tempo histórico. Sim, a sua morte era esperada, mas nem por isso ela é menos triste.

Eu aprendi muito com ele. Muito mesmo.

Com a Jangada de Pedra José Saramago me ensinou sobre o sensação de não pertencer; no seu Ensaio Sobre a Cegueira Saramago me ensinou sobre o enorme fardo que pesa sobre os ombros dos amaldiçoados que conseguem enxergar; em O Homem Duplicado ele me ensinou que nós nunca mais seremos únicos; em As Intermitências da Morte ele me ensinou a pensar com alguma serenidade sobre a morte; com A Viagem do Elefante - um evento real - ele ensinou o absurdo da burocracia, da igreja e do Estado ineficiente; em Todos os Nomes ele me ensinou o poder de vida e morte da burocracia e das obsessões; na História do Cerco de Lisboa ele me ensinou como uma única palavra tem o poder para mudar toda a História. Eu não sei quais são as lições que se escondem na trajetória de Caim, ou no Evangelho Segundo Jesus Cristo.

Não sei o que há no Memorial do Convento e nem imagino sobre o que trata o Ensaio Sobre a Lucidez. E não pretendo saber tão cedo. Para mim estes livros são preciosos e, mais do que nunca, eu preciso economizá-los. Mas eu acho que a coisa mais importante que aprendi com José Saramago foi a subversão.
Sim, ele me ensinou muitas coisas, mas, de longe, a que teve maior peso na minha vida foi o que ele me ensinou sobre a a língua portuguesa. Seu texto sem vírgulas, seus parágrafos longos, aquilo que era tido como seu "estilo" era também uma insurgência dele contra todas as regras.
A lição mais importante que José Saramago me ensinou, quando eu era bem mais jovem, e pela qual eu lhe agradeço infinitamente, foi que a língua portuguesa não pertencia aos meus professores na escola, ela era minha, ela ME pertencia.

Certa vez ele disse que a literatura não tinha como mudar o mundo. Eu concordo. Exceto, talvez, no caso dele. Ao Sr. Saramago o meu muito obrigado.