Com cuidado. Com muito cuidado

Chego tarde. Dou aula de noite, em outra cidade. As tarefas domésticas parecem estar sempre acumuladas. Decido tirar o atraso e resolvo guardar a louça da pia antes de ir deitar.

Distraído me escapa uma tampa de panela das mãos, ela bate no chão (só a tampa, sem a panela), o barulho do impacto, no silêncio da noite, acaba sendo mais alto do que eu gostaria a essa hora da madrugada em um condomínio.

"Posso acordar algum vizinho", é o pensamento que me passa pela cabeça, enquanto franzo os olhos e espero a tampa parar de rodar no chão.

Antes que isso aconteça o meu vizinho do lado grita a plenos pulmões: "Fóóóóra Diúúma!", na sequência uma buzinada longa e rouca responde seu grito, acho que é um ônibus?!? (Porra, onde tem ônibus uma hora dessas?).

Então ouço a vizinha de cima, uma velhinha simpática, uma vovozinha amorosa, que no elevador sempre sugere que eu deixe meu filho lá "para um lanche, se você precisar sair ou algo assim", gritando: "Viva os militares! O Brasil é verde oliva! Suas bichas!"

A imagem da velhinha lanchando o meu filho assalta minha imaginação, até agora eu nunca havia pensado no convite como uma ameaça, nesse instante vejo a vovozinha mascando banguela a carne dele. Afasto o pensamento horrível da minha cabeça.

Cães uivam pelo bairro todo. Meus olhos seguem o uivo dos cães para a janelinha da cozinha, no prédio da frente apartamentos acendem e apagam as luzes em um tipo de código Morse epilético. Tem gente buzinando na minha garagem. Dentro da garagem! De madrugada!

Por cima do buzinasso, alguém com pulmões de tri-atleta grita dois tons acima do que seria considerado humano: "VacaFilhaDaPutaAntaArrombadaVaiTomarNaPeidaSuaVelhaNojentaNoveDedosDeCubaDoCaralho"

"Tomar na peida"? Nunca tinha ouvido essa, e não era o Lula que tinha os "nove dedos"? Minha breve reflexão sobre os impropérios é interrompida por um rojão.

Não. Não é um. É uma saraivada de tiros. Espero que sejam mesmo rojões. Isso não é possível. Essa gente tinha combinado isso? Os rojões tinham que estar prontos antes, meu Deus, isso tem que ter sido ensaiado. Pelo menos umas três vezes.

E silêncio.

Não durou nem um minuto. Acabou. O prédio da frente está escuro, não se ouve vivalma lá fora. Chego a ficar pensando se eu não imaginei isso tudo. Não..., meu ouvido está zumbindo, mas por outro lado pode ser só o cansaço.

Espio pela janela. Tudo calmo. Nem um cachorro late. Lá fora só a paz.

Olho para a tampa da panela no chão com o respeito que olharia para um doberman desta mesma distância, me aproximo, e com as duas mãos e muito cuidado, como se estivesse segurando uma bomba muito sensível, coloco a tampa da panela de volta na pia. Com cuidado. Com muito cuidado.

Amanhã eu guardo. De dia. Quando o bate estacas da construção ao lado puder encobrir qualquer deslize que eu cometa.

Vou dormir. Não. É pouco provável. Mas eu vou pelo menos tentar. Sem fazer barulho. O importante é não fazer barulho.