EM 1992...

Em 1992...

...eu era um garoto, junto com um amigo da escola, em uma fila gi-gan-tes-ca na Escola Panamericana de Arte.

Estávamos lá, esperando pela nossa vez de pegar um autógrafo de Deus, que gente menos educada chamava de Will Eisner.

Eu já havia me decepcionado ao pegar um autógrafo do Howard Chaykin, que não pareceu impressionado com meu inglês macarrônico e foi absolutamente escroto e arrogante com dois garotos brasileiros, que enfrentaram uma fila enorme por sua assinatura dada de má vontade. Era óbvio que aquilo não era o público que um "artista" de seu porte julgava adequado à sua obra.

Howard Chaykin, um sujeito tão arrogante que conseguiu fazer de seu "American Flag" o único gibi que eu já joguei no lixo. Entendam a gravidade disso: eu tenho até coisas como "Amazing M.U.C.H.A.C.H.A.S." guardado na minha coleção.

Mas eu não estava ali, naquela fila, segurando minha cópia de "Um Sinal do Espaço" pelo idiota do Chaikyn, eu estava ali pelo "mestre", o cara que havia provado que gibis podiam ser sérios, profundos e ter qualidades literárias. Eu estava ali pra ver Deus.

Mas a fila pra ver Deus era enooooorme. Saia da Escola Panamericana de Arte e se esgueirava pela Avenida Angélica, quem em 1992 teria imaginado que já haviam tantos nerds assim em São Paulo? Com tudo aquilo de fila era um oizinho, uma assinatura e um "tchau! próximo!", controlado pelos organizadores.

Pra mim valia, sem problemas, as duas horas de espera em pé.

E eu estava com um amigo, que podia inclusive guardar meu lugar enquanto eu ia ao banheiro.

Banheiro vazio. Tudo no automático: Abre o zíper, faz pontaria, acerta a porcelana, balança, guarda, fecha o zíper, lava a mão, olha pro lado, vê o Eisner lavando a mão, seca a mã... PUTA QUE O PARIU!!! É O WILL EISNER LAVANDO A MÃO DO MEU LADO NO BANHEIRO!!!

Sozinhos. Eu e ele. Tá. O cenário ainda era um banheiro, mas naquele momento eu estava no paraíso. Não tinha como perder essa chance.

Era agora que eu ia descobrir que o velho Eisner era tão idiota quanto o jovem Chaikyn. Não ia?

[cenário: eu e ele lavando a mão e olhando pelo espelho]

- Mr. Eisner?
- Yes?
- Sir... well, wow, it really is a pleasure to meet you Sir.
- Oh, thanks!
- Sir... I have to tell you that I don't think you write stories in comics format Sir.
- ... Don't I?
- No Sir. To me you make comics poetry.

[é, eu sei, foi cafona, mas foi sincero. Acho que eu tinha uns 16 anos na época, me dá um desconto]

- Oh, you are very kind, thank you!
- No Sir, I thank you!

[fanboy até a medula!]

Então eu lhe cumprimentei, já com nossas mãos secas, e saímos do banheiro, cada um com sua missão, ele pra continuar distribuindo assinaturas para adolescentes com problemas de relacionamentos, e eu pra me gabar de um dos mais incríveis encontros da minha vida até ali. Pela primeira vez todas aquelas aulas de inglês se justificaram.

Mais tarde minha vez na fila chegou. Ganhei um autógrafo, um sorriso e novamente um comentário de que eu era "very kind".

Eu cresci para não ter muitos heróis. Me tornei um cínico e duvido de todo mundo. Meu heróis são cuidadosamente selecionados entre gente morta, defuntos com biografias bem estabelecidas e coerentes, gente que dificilmente poderá me decepcionar.

O senhor William Erwin Eisner foi uma exceção, como Joey Ramone e José Saramago, foi uma das raras pessoas que eu admirei profundamente enquanto ainda estavam vivas.

Hoje ele faria 100 anos.

Parabéns Sr. meu herói.